MANIPULAÇÃO
O pólo negativo da
“conscientização” é a manipulação. A pessoa é “sujeito” e deve ser
tratada como “sujeito”. Mas a pessoa pode ser convertida e tratada como
“objeto”. Este é um dos maiores riscos que corre.
Apresentamos aqui uma reflexão sobre o fato da manipulação humana. Embora
o tema não tenha ainda encontrado esquemas claros de desenvolvimento, não
podemos deixar de traduzir numa linguagem de reflexão as pré-compreensões que
o homem de hoje tem com relação ao fenômeno humano da manipulação.
Deixaremos de tratar os aspectos morais da manipulação no campo da
biologia humana, por exemplo. Fixar-nos-emos no fenômeno global da manipulação.
A realidade da manipulação não foi ainda submetida a uma reflexão
sistematizada. Rahner constata o fato sintomático de que este termo não entrou
nos dicionários das ciências políticas e sociais.
Procurando esclarecer conceitualmente a realidade da manipulação humana,
faremos em seguida um conjunto de aproximações parciais. Para isso, teremos em
conta as contribuições dos autores que nos últimos anos refletiram sobre essa
realidade.
1.
Conceito de manipulação
a) O uso do termo “manipulação”
A expressão manipulação “do homem” é ambígua e imprecisa. Trata-se
de uma palavra tópica, com todas as características que isso comporta:
imprecisão, carga emotiva, qualidade sugestiva mais que esclarecedora etc. O
uso que dela é feito nos fala de um espectro grande de significados, que vão
desde o campo das ciências naturais ao da critica social, para terminar no âmbito
da pura polêmica.
Os diversos empregos que se costumam fazer do termo “manipulação”
dependem dos seguintes fatores e interesses:
a) Um primeiro fator de diversificação nos é proporcionado pela variedade
de campos em que foi e é empregada: na práxis médico-cirúrgica, nas experiências
físicas e químicas, no influxo bioquímico sobre os genes, na experimentação
sociológica científica (manipulação das variáveis dadas – pesquisas
eleitorais ou de opinião, por exemplo), na crítica social etc. Esta primeira
constatação fala-nos de um deslize do uso do conceito manipulação do campo
das ciências naturais para o da crítica social a terminar no âmbito da pura
polêmica.
b) Dentro do âmbito da crítica social, o conceito de manipulação tem
fronteiras pouco definidas. Com efeito, no plano descritivo se situa freqüentemente
em equivalência a retórica, arte de persuadir ou doutrinar, inabilitação,
repressão, de-sublimação, tudo isso para o âmbito de conseqüências
referidas às pessoas; e com a publicidade, a propaganda, a unificação, a
exploração ou a demagogia, para o âmbito das conseqüências preferentemente
relativas à sociedade. Como demonstra esta lista, certamente não completa, de
conceitos estreitamente aproximados e não claramente delimitados entre si, o
conceito de manipulação abarca praticamente todo o conjunto de técnicas de
influência social - excluída
unicamente a utilização da força bruta -, sem nos permitir reconhecer uma
diferença específica entre os conceitos apontados, e que torna indispensável
para uma definição válida.
b) Sentido etimológico
A partir do estudo do tema nas obras clássicas de Forcellini e Du Cange e
nos dicionários etimológicos das línguas modernas, Ferrero chega às
seguintes conclusões sobre a acepção etimológica da manipulação: “O
termo ‘manipulação’ e seus derivados provêm em todas as línguas
ocidentais (alemão, espanhol, francês, inglês, italiano e português), do
latim manipulus, manipulare, manipulatio, manipulator, compostos por sua
vez das raízes latinas manus (mão) e pleo (encher).
Por isso seu significado original está relacionado com a idéia daquilo que se
leva na mão ou do que pode ser contido na mão. Era a própria idéia de manipulus
no latim decadente falando de ervas, flores, sementes, substâncias químicas
ou metálicas etc., sobretudo com relação à alquimia, à farmácia, à arte,
à ourivesaria ou à cerâmica, até converter-se em medida. A ação
correspondente, manipulare, manipulatio, se referia, paralelamente, à ação
e à arte de combinar ou manejar esses elementos para obter um resultado
especial, distinto do que se podia esperar deles abandonados a si mesmos. Daqui
a idéia de tratamento, elaboração, manejo e transformação que o homem fazia
com suas próprias mãos do corpo humano (medicina e cirurgia), dos produtos químicos
(química e farmácia), das terras e metais (arte, cerâmica e ourivesaria). É
o colorido que ainda conserva quando se trata do significado metafórico: um
tratamento e manejo dos materiais manipulados e de suas possibilidades para se
obter um resultado concreto partindo de uma alteração da natureza ou modo de
ser desses elementos, aproveitando suas propriedades, suas qualidades, as
energias, as leis intrínsecas de cada um. O manipulador, no sentido etimológico,
obtém resultados maravilhosamente distintos daqueles que são próprios dos
ingredientes naturais, mas sem os alterar previamente. Por isso se supõe nele
um conhecimento, uma ciência e uma arte das propriedades e das leis a esses
elementos sujeitos, sendo tudo isso desconhecido, secreto a todos aqueles que de
qualquer modo estão ou possam estar interessados pelo resultado da manipulação.
Esta ciência e este segredo são a base da ganância, do prestígio e da eficácia
da manipulação.
c) Definição conceitual
Procurando definir o conceito de manipulação, temos que distingui-lo e não
confundi-lo com outros conceitos bastante parecidos. A manipulação humana, tal
como aqui é entendida não se identifica com:
- violação aberta e deslavada da liberdade do homem (desde a escravidão
propriamente dita até as novas formas de servidão do homem);
- violências físicas ou morais infligidas sobre outras pessoas, que as
padecem e agüentam, porque não podem desfazer-se delas (por exemplo, injustiças
no mundo do trabalho, opressão no setor político, prática de tortura para
arrancar confissões, dinheiro etc.);
- formas de desumanização, realizadas pelo próprio sujeito que as padece
ou por outro agente alheio a ele.
A manipulação é a violação da liberdade, é uma violência e é uma
forma de desumanização. Mas nem toda desumanização, nem toda violência, nem
toda a violação da liberdade devem ser entendidas como ações manipuladoras.
O conceito de manipulação traz consigo uma nota específica que o
qualifica enquanto tal: a ausência ou supressão de toda dimensão crítica
por parte do manipulado, e a aceitação de tal acriticidade por parte do
manipulador.
Manipulação não significa uma simples influência ou exercício de poder
como tais, mas uma forma toda especifica, irracional de exercer a influência e
o poder. É o exercício do poder sem legitimação, sem autoridade. A manipulação
descarta tudo o que é raciocínio crítico do interessado. O homem não percebe
o ataque como não percebe uma combinação química. Os estímulos da manipulação
são percebidos de forma inconsciente; por meio dum arranjo feito habilmente,
permanecem ocultos à consciência. Criam assim uma falsa consciência, e, a
partir dela, a vítima das práticas da manipulação crê falsamente que tomou
uma decisão racional. Aproveitando-se da forma irresponsável de uma disposição
fundamental do homem, de sua natureza social, paralizando assim sua capacidade
de objetivação e de distanciamento, sua liberdade, a manipulação deve ser
considerada de fato como a mais desumana que todas as outras formas de
violência ou de opressão.
Para Böckle é também a ausência de criticidade no manipulado a nota
específica do conceito de manipulação. “Tomada em seu sentido mais amplo, a
palavra “manipulação” significa hoje algo assim como “preparação do
homem”, o que designa uma influência exercida seletiva e certeiramente sobre
processos de desenvolvimento tanto individuais como sociais, sem que os
atingidos de fato possam entrever suficientemente nem o processo em si mesmo nem
os objetivos e métodos da persuasão a que são submetidos. Nesta condição
precisamente se põe toda a ênfase já que nem a persuasão inter-humana, nem a
intervenção nos processos vitais são, em princípio, algo novo. O problema da
manipulação repousa na falta de transparência para os atingidos”.
2.
Formas da manipulação (âmbitos
da manipulação humana)
O homem é um ser manipulável. Não é de estranhar, portanto que existam
muitos campos de manipulação. Em qualquer lugar onde o homem se realiza
podemos encontrar um campo possível para a manipulação.
Pode-se fazer diversas classificações das formas de manipulação.
Consignamos em seguida duas: uma classificação sistemática e outra
descritiva-concreta.
a) Tipologia sistemática
Fazendo uma consideração sistemática do homem e da manipulação, pode-se
chegar como o fez Ferrero, à seguinte classificação:
- Em razão do sujeito manipulador: manipulação individual ou institucionalizada,
conforme se trate de um indivíduo ou de uma instituição (sociedade,
cultura, grupo social, nação, partido, associação) que procura manipular a
liberdade dos demais;
- Em razão do sujeito manipulado: manipulação pessoal, social ou
ambiental, conforme se procure controlar a liberdade a partir da pessoa, do
grupo social, ou do meio ambiente em que vive. Por sua vez, a manipulação
pessoal pode ser: somática (ou psicossomática) e psicológica,
conforme se realize a partir do corpo ou por meios psicológicos que atuam
diretamente sobre o espírito;
- Em razão do modo como se realiza: manipulação mediata ou
imediata, consciente ou inconsciente, vulgar ou científica;
- Em razão dos efeitos que vai produzir na pessoa
ou no grupo manipulados: manipulação inócua (sem outros efeitos
que a manipulação da liberdade e a consecução dos fins a que se havia
proposto o manipulador), perfectiva (corrige ou melhora o modo de ser do
sujeito manipulado, proporcionando-lhe, conforme a estimativa social
estabelecida, um benefício, embora não seja isso o que diretamente busca o
manipulador) ou prejudicial (se, além de manipular sua liberdade,
causa-lhe outros danos).
- Em razão do fim a que se propõe o manipulador:
manipulação necessária
(nasce do contexto sócio-cultural no qual vive o manipulador e o sujeito
manipulado), útil (procura melhorar a situação do sujeito manipulado
ou a de ambos), terapêutica (procura curar de alguma maneira o sujeito
manipulado, enfermo ou incapaz de guiar-se normalmente por si mesmo no
uso de sua liberdade), experimental (quer experimentar práticas ou
medicamentos que podem se tornar benéficos para o sujeito manipulado ou para
toda a humanidade), egoísta (quando somente procura a utilidade do
sujeito manipulador sem levar em conta a pessoa dos outros);
- Em razão dos meios empregados para a manipulação: manipulação somática, psicológica, social
ou cultural conforme se tenha em vista as leis e condicionamentos que
podem influir sobre a liberdade a partir do corpo (medicamentos, operações,
transplantes, drogas etc.), a partir do espírito (métodos sicológicos
e parapsicológicos em toda a sua amplitude) ou do meio sócio-cultural (educação,
meios de comunicação social – mídia -, grupo, família, ideologia, utopias
etc.).
b) Classificação descritiva-concreta
Mais interessante que uma tipologia sistemática da manipulação é uma
exposição descritiva das principais formas manipuladoras do homem atual. Aqui
vão algumas delas:
- manipulação da biosfera na qual vive o homem: contaminação do
ambiente, sobretudo do ar e das águas (manipulação macro-ecológica);
desumanização das cidades (manipulação micro-ecológica);
- manipulação da cultura e da arte: instrumentalização e comercialização
da arte (por exemplo: o cinema, a televisão etc.); educação utilitária, para
uma ordem estabelecida... É por isso mesmo que se postula hoje uma
cultura e uma educação libertadoras;
- manipulação através dos meios de comunicação social (MCM = Meios de
Comunicação de Massa): é a existência desses meios a que explica e
possibilita, em grande parte, todas as outras formas de manipulação. É esse
um aspecto muito desenvolvido na crítica social atual;
- manipulação publicitária, servindo-se fundamentalmente dos instintos
humanos de agressividade, sexualidade, poderio etc.;
- manipulação social em suas várias fontes: econômica, política
e ideológica;
- manipulação da opinião pública;
- manipulação da racionalidade do agir humano (manipulação e cibernética);
- manipulação no plano religioso (seitas, mistificações das crenças e
crendices, superstições, astrologia, horóscopos, simpatias, devoções e
outros “ópios”...)
Todas essas formas de manipulação podem ser resumidas numa só: a
tentativa de modificar interresseiramente o próprio homem. Tal modificação
pode ser entendida como uma “autoprogramação” do futuro ou como uma influência
irracional e acrítica, por parte de quem a padece de modo a configurar um tipo
de homem que melhor se acomode a outros fins. O primeiro aspecto aparece
fortemente nas “pesquisas” e experimentações biológicas. O segundo
aspecto aparece mais claramente no campo da ação social do homem.
3.
A manipulação social: forma privilegiada das manipulações atuais
Acabamos de assinalar que as formas de manipulação se unificam na elaboração
de um “tipo de homem” que melhor se acomode aos fins que o manipulador
persegue. Com isso afirmamos também que a forma privilegiada de manipulação
é a de caráter social. A “unidimensionalidade” socialmente manipulada vem
a ser o núcleo originário de todas as forças manipuladoras do homem atual.
A manipulação social pode ser verificada de um modo concreto nas manifestações
da vida social atual. Constata-se o poder da manipulação nos diversos níveis da realidade
social: na publicidade, na opinião pública, na elaboração e na força das
ideologias, nos sistemas educativos, no exercício da autoridade, no
comportamento permissivo da vida social atual, na programação econômica, nas
técnicas de pesquisas, nas realizações de diferentes grupos humanos etc. Um
discernimento sobre estas formas de manipulação conduz-nos à conclusão de
que a “manipulação constitui um fato não exclusivo, mas sim típico das
sociedades industriais avançadas” (Merks).
Cremos que o problema deva ser apresentado em um nível ainda mais profundo.
A manipulação aparece nas manifestações da vida social precisamente porque a
estrutura social atual tem uma configuração manipuladora. É justamente
esta estrutura social que desencadeia todo o processo manipulador: a) cria
“aquele que manipula” dando origem a homens, grupos ou sistemas que
necessariamente originam o “manipulado” ao tornar fácil a existência de
homens ou grupos de homens que crêem atuar por sua própria conta embora de
fato estejam sendo programados (telespectadores, leitores de jornais, assembléia
de sindicatos etc.); b) cria o “manipular” enquanto operação
calculada para transmitir uma mensagem determinada a um receptor humano a fim de
que a viva como sua (o “input” ou entrada desencadeará um “output” ou
saída sem “ruídos” vivenciais).
Para descobrir a força manipuladora do sistema seria necessário realizar
uma análise da estrutura configuradora da sociedade atual. Indicamos as pistas
por onde se deve canalizar a tal análise:
* A cultura tecnológica e sua incidência na sociedade
estruturalmente manipuladora.
A tecnologização de nossa sociedade e de nossa cultura é um fato. O
diferenciador e específico da revolução tecnológica com respeito a outras
revoluções anteriores (a neolítica, a industrial etc.) é que está passando
a barreira da até agora inabordável intimidade do homem, cuja originalidade e
liberdade pareciam estar resguardadas, muito além da influência da tecnologia.
Mas o problema não está na tecnologização; esta por si só não leva a uma
manipulação humana. O fantasma da manipulação aparece pelo fato de que nem
todos os grupos têm a mesma possibilidade de apropriar-se das conquistas tecnológicas.
Só as novas classes detentoras do poder econômico, social, político e
cultural são as que realmente se apropriam das novas conquistas dos homens e
dos povos, que tornaram possível a atual tecnologia mediadora, e conseqüentemente
expropriando-os de si mesmos. A intervenção das classes detentoras do poder é
que introduz o mal da manipulação dentro da sociedade tecnológica. Como
afirma Belda, “do ponto de vista sociológico, a manipulação supõe um
modelo de sociedade elitista e autoritária baseada na desigualdade radical.
Este modelo pode-se concretizar em formas muito diversificadas que vão desde
uma sociedade descaradamente fascista a uma sociedade industrial avançada
formalmente democrática...
O dinamismo da manipulação requer estes três suportes, para funcionar: a)
desigualdade social institucionalizada; b) relações sociais fundadas no domínio
de uma minoria sobre a maioria; c) manejo da consciência individual, graças
aos serviços das instituições educativas e dos meios de comunicação de
massas. Diante dessa manipulação estrutural só é possível a alternativa de
uma reestruturação social na qual, partindo de uma verdadeira democratização,
se consiga “despojar” as novas classes do poder de suas injustas apropriações
exploradoras e manipuladoras para devolvê-las ao homem e aos povos.
* A unidimensionalidade da sociedade como
origem da manipulação humana estrutural.
A escola de Frankfurt coloca a manipulação na eliminação da
capacidade do homem para desenvolver a função crítica de sua razão e a função
utópica do sentido da totalidade. Marcuse concretizou esta afirmação geral
assinalando que a manipulação humana surge quando se reduz o homem à “unidimensionalidade”.
Tal “unidimensionalidade” ele a descobre nas sociedades industriais avançadas,
dentro das quais “a cultura, a política e a economia se unem num sistema
onipresente que devora ou rechaça todas as alternativas. A produtividade e o
crescimento potencial desse sistema estabilizam a sociedade e contêm o
progresso técnico dentro do limite da cominação. A razão tecnológica
tornou-se política” (H.
MARCUSE, O homem unidimensional).
Nas sociedades industriais avançadas poder-se-ia propiciar o reino das
liberdades contanto que se desse fim à racionalidade tecnológica. Somente
fazendo desaparecer a “unidimensionalidade” se poderá conseguir a libertação
e, portanto, a eliminação da manipulação humana.
*
A “sociedade rica” e sua manipulação através do consumismo.
A sociedade está projetada e se expande dentro de uma civilização
dominada pela lei “do consumo”. A industrialização do passado, o urbanismo
e a massificação de ontem e o tecnicismo de hoje desembocam necessariamente
numa “sociedade opulenta” e de consumo. Esta situação é a origem da
manipulação estrutural que acompanha a sociedade atual.